Uma Resposta ao Artigo “Behind Media: Manifesto Anti-Gamer” de Rui Craveirinha

Deparo-me com a necessidade de escrever um post em Português num blog onde quase só escrevo em Inglês e quando o Rei faz anos, mas tenho uma vontade enorme de responder a este artigo. É mais forte que eu. E sabem que eu não resisto a estas coisas.

Tenho uma pergunta para ti, Rui. Posso tratar-te por Rui, certo? Mas a pergunta não é essa, a minha pergunta é: se odeias gamers tanto porque é que estás a escrever para IGN? A última vez que verifiquei a IGN é um site para gamers sobre gaming. A minha mente não consegue compreender o que diabos está uma pessoa a fazer num site de gaming se odeia isso desta maneira.

Eis a minha definição: o jogador joga videojogos porque retira prazer desse ato. Ao invés, o gamer joga videojogos precisamente porque não retira qualquer prazer desse ato.

Esta pequena quote explica toda a minha aversão ao artigo e à forma como autor trata a palavra gamer.

O termo gamer apareceu durante o amanhecer dos jogos de mesa (ou tabletop games, no seu original) como Dungeons & Dragons e até alguns jogadores de Magic se referenciam a isso mesmo como gamers e não players.
Mas porque não players se é uma tradução mais directa da palavra gamer? Em Inglês, player é calão para um homem que seduz muitas mulheres ao mesmo e tem uma conotação negativa. Chamar-nos a nós próprios players seria usar um termo negativo para descrever uma actividade positiva e da qual retiramos diversão, experiências novas e conhecimentos.
Considero que ainda há um problema maior na citação, jogador é uma tradução de gamer. Em Inglês, não há a destinação que o autor define, entre gamer e player, porque como disse ser player é algo negativo.
Eu uso a palavra gamer para facilitar a identificação com o meu hobbie, principalmente em sites de língua Inglesa. É mais rápido e toda a gente sabe o que é.
Outra falha que considero grave é um total ignorar que existem causal e hardcore gamers. Cada pessoa define-se com o termo que acha que mais correctamente define a usa experiência enquanto jogador de video jogos, embora eu não use nenhuma das duas porque, honestamente, eu gosto de ambos os tipos de jogos. Casual, hardcore, qual é problema, se o que nos une é o amor uma nova forma de arte? No entanto, o autor considera isto um problema.

Terminam depois num momento de silêncio contido e emocionado, em que eles levam a mão ao peito (firmando-a sob uma t-shirt do AAA da moda) e olham o infinito com uma nobreza enternecedora, quase como se ouvissem um hino à pátria (gamer) soar nas suas cabeças. Pois bem meus amigos, nem essas demonstrações de afeto e honra da pertença ao clube do gaming me convencem, e é para me não ter de me repetir sempre nesses momentos algo embaraçosos, que decidi enunciar, com tanto detalhe quanto possível, este meu “Manifesto Anti-Gamer, ou 12 razões porque odeio os gamers”.

Acho piada a isto porque o orgulho em gostar-se de algo não tem nada de mal. Não há nada de mal em meter a mão ao peito, por cima da minha t-shirt de No More Heroes 2 e declarar que amo vídeo jogos.

Abençoado sejas, Travis Touchdown.

No que há mal é no excesso desse orgulho, na falta de interesse e por outras coisas e nos snobs. Esse tipo de pessoa estragam tudo para toda a gente e ninguém gosta deles. Não sei até que ponto é que o autor procurava a palavra snob e não gamer, porque fazia mais sentido no artigo do que a palavra gamer, mas ele lá sabe.

Um snob no seu habitat natural.

O problema do gamer é que quanto mais joga, mais o seu corpo se habitua à inundação de endorfinas que lhe enchem o cérebro, por isso, ao mesmo tempo que sente menos prazer, mais anseia por sentir. Não há desafios, nem recompensas, nem experiência, nem ouro, nem achievement, nem troféu, nem platina que lhe devolvam a experiência daquele sentimento único na sua vida, de êxtase absoluto e completo, de toque com o divino absoluto e inarrável que sentiu quando jogou pela primeira vez, e por isso permanece eternamente na busca de alívio da dor dessa ausência, não interessa o quão fugaz e passageiro seja esse alívio, e por isso joga. Joga e joga e joga e joga. Um jogador joga para viver, um gamer vive para jogar.

Vamos meter os pontos nos is. Pessoas diferentes jogam por razões muito diferentes. Eu pessoalmente sou uma jogadora de história. O meus jogos favoritos incluem Drakengard, El Shaddai, Silent Hill 2 e Shadow of the Colossus, que são jogos baseados em história, mistério e na experiência. Não jogo pelos achivements, nunca plantinei um jogo na vida. E por mais estranho que pareça eu já passei o Drakengard milhares de vezes e nunca nenhum jogo me transmitiu o mesmo sentimento de alienação e falta de agência. É um simulador de matar exércitos montado num dragão, uma história sobre um psicopata que viu os pais serem comidos por um dragão. Não é suposto retirar nenhum prazer do jogo. Não é divertido, não é cómico, é uma constante espiral de desespero e morte, uma descida ao Inferno.

E soa a tal.

O facto de eu jogar por experiências e não necessariamente pela rush faz com a minha visão de gaming seja diferente da de muita gente, possivelmente nem será a mais popular, mas é diferente. A minha rush deve-se ao que sinto pelos jogos e essa rush nunca acaba.

Aya no seu habitat natural.

Para encher o buraco negro que habita a sua alma e que lhe pesa brutalmente quando não há campanhas de marketing para atiçar o hype, o gamer vira-se para a sua muleta espiritual: o consumo. Um gamer vive de consumir. Ele compra tudo. O gamer compra videojogos, claro, mas também compra demos, compra items de jogo, compra DLC, compra expansões, compra edições de colecionador e edições de jogo do ano de videojogos que já tem, compra ports e remasters e remakes, compra consolas, compra acessórios, compra componentes de hardware, compra revistas, compra manuais de jogo, compra artwork, compra bandas sonoras, compra merchandising, compra bonecos, roupa e jogos de tabuleiro baseados em videojogos, e também filmes, livros e bandas desenhadas baseados em videojogos ou videojogos baseados em filmes, livros e bandas desenhadas, o gamer até compra hype no kickstarter e no steam greenlight. O gamer compra, compra, compra tudo e mais alguma coisa, e quando não tem mais dinheiro para comprar, pirateia, copia ou rouba o que falta, pois nada sacia o seu desejo de consumir!

Okay, calma. Vamos ter muita calma.

É verdade que há pessoas que compram tudo e acham-se muito fixes por isso, há outras que o fazem para terem um lugar a que pertencer, mas há uma diferença entre comprar porque sim e comprar-se pela beleza da coisa ou porque gostamos disso e queremos apoiar o que está por detrás.

Eu sinto-me capaz de atirar os 100 euros que esta figura vale simplesmente porque é uma das coisas mais bonitas que eu já vi entro de estátuas de personagens de anime. Não há qualquer desejo consumista nesta minha vontade, apenas uma enorme admiração por uma figura tão bonita que me atrevo a chamar-lhe arte.

O mesmo acontece comigo e como minhas outras pessoas que dariam esse dinheiro por lindissimas figuras de muitas outras personagens.

Final Fantasy Creatures Kai Vol. 5 - Kefka

E porque não? São excelente decoração. Há pessoas mais práticas que não vêem o objectivo de ter estas coisas, e eu compreendo-as. O único objectivo de ter uma figura é a apreciação da arte e a beleza que elas proporcionam. Nesse aspecto há melhor coisas para se comprarem, como t-shirts, hoddies, casacos, malas, carteiras, cintos, luvas ou gorros. Todos tem um uso claro e demonstram o nosso gosto. Não há pessoas que usam coisas de bandas? Ninguém reclama com elas. Porque é que se tem que reclamar com os gamers?

Remakes, GotE, ports e outros afins são uma coisa diferente.
Confesso que tenho duas versões diferentes do Dishonored pelo simpless facto de não querer pagar 20 euros por dois DLCs com o Daud que é o preço da Game of the Year Edition. Confesso também que comprei o DLC do Adachi do Persona 4 Arena Ultimax que expande a história do jogo e compro sempre os DLCs de The Binding of Isaac. Não tenho segundos pensamentos sobre estas compras. Sei que é estúpido ter duas versões do mesmo jogo, mas além de ter duas experiências de jogo (uma versão é de PC e a outra da PS3), posso expandir a história.
O mesmo acontece com jogos como o Witcher 3: The Wild Hunt.
Não há mal nenhum em fazer remakes e ports de jogos antigos que já ninguém joga e dar-lhes o uma nova vida, dando-os a conhecer a uma nova geração de jogadores de não lhe ligou, não conseguiu comprar ou simplesmente era novo de mais para jogar.

Case and point.

O problema é que há abusos de ambas as partes. DLCs, remakes, HD Collections e ports são usados e abusados por ambos os lados, quer porque há coleccionadores que querem ter tudo, quer pelas empresas que querem mais e mais dinheiro. Não considero isso um problema total dos gamers, mas de uma sociedade mal informada que procura um prazer fácil. Na sua grande maioria, jogos não são um prazer fácil. Um bom jogo requer trabalho e tempo para se poder passar.

Olha outro!

A expansão da história e lore é algo divertido de se ver, é algo que muitos gamers gostam de ver e não nada melhor para começar a ler do que um livro de jogo de gostamos, ainda é mais bonito ver jogos baseados em livros.

Porque isso não existe nem nada.

A compra deste tipo artigos vem de um gosto que nós, jogadores, temos por algo. Muitos de nós não vamos gastar 30 euros mais portes num artbook só porque sim. É porque gostamos do jogo e da arte. Eu adoro arte e os artworks de vídeo jogos são uma forma de arte que gosto de admirar, por isso quando há um artwook disponível de um jogo que gosto porque não tê-lo? Porque custa dinheiro? Não há nada que me dê mais gozo do que atirar dinheiro à cara de quem o merece. Não há nada que me dê mais gozo do que apoiar alguém que trabalhou arduamente para conseguir algo e ao comprar estas coisas estou a dar de comer a estas pessoas. Porque as pessoas que fazem estas coisas também comem, como nós.

E sim fico hyped com Kickstarters de coisas que gosto de fazer back, porque gosto. E qual é o problema de gostar de pombos?

Para comprar, o gamer congrega-se em lojas, verdadeiras igrejas da sua fé, onde perde tempo, muito tempo a decidir o que comprar, planeando tudo ao mais ínfimo detalhe e discutindo-o com os clientes e empregado.

E as pessoas normais não fazem isso quando vão a lojas de roupa? Não é assim tão fora do comum. Será que o autor vai a lojas de roupa de mulher? Eu acho que não. Acho que ele não vai a lojas no geral.

Nem sequer precisa de sexo, porque tem as meninas do “Dead or Alive”, do “Senran Kagura” e afins, e se for romântico e quiser um pacote completo com amor verdadeiro tem as visual novels e dating simulators e waifus.

Eu vou deixar isto aqui.

Estes vídeos explicam melhor do que eu alguma vez poderia a problemática dos dating sims. Porque eu estou numa relação, eu tenho alguém que amo. Como muitos outros gamers, eu tenho um amante (má escolha de palavras, eu sei). Na verdade, foi o nosso gosto do vídeo jogos que nos uniu.
Sei que para o autor isto pode parecer alien, mas eu apaixonei-me por um gamer e juntos jogamos vídeo jogos e falamos de vídeo jogos. Eu só me tornei tão próxima dele por causa dos vídeo jogos. Não é estranho? Supostamente, segundo o artigo, somos solitários que preferem a companhia que uma personagem a uma outra pessoa, mas a verdade é que não somos.
O autor nem sequer contempla a existência de mulheres que jogam vídeo jogos, como eu. A generalização atira-se aos homens com unhas e dentes, como se eles fossem os únicos afectados e os únicos que existem na comunidade.

O gamer também não lê livros, não ouve música, nem respira ar que não seja do gaming… e por isso um gamer sabe tudo de gaming e nada de tudo o resto. O gamer é, por definição, e em perfeita simultaneidade, um génio (para o gaming) e uma besta (para o mundo). E é por essa razão maior que adorará para sempre os videojogos como um deus, porque não conhece mais nada, não viu mais nada, não experienciou mais nada. Vive num casulo confortável que eclodiu de uma incompreensão fundamental sobre a existência de um mundo mais amplo, vasto e belo.

Uma generalização continua e sem fundamento, como alguém que entro na GAME, viu os putos de volta do Call of Duty e decidiu que todos os gamers  são assim, ignorado outros video jogos e outras pessoas.

Shadow of the Colossus
Witcher 3: The Wild Hunt
The Elder Scrolls V: Skyrim
Final Fantasy XIII
Journey

E poderia ficar aqui o dia todo a demonstrar a beleza contida nos vídeo jogos, até em jogos considerados maus. É algo infinito, maravilhoso e há sempre algo para encher o coração de cada um de nós. E é isto que o autor não compreende.

Em vez de postar obras de arte que pouco têm que ver com o assunto trata, sugiro ao Rui Craveirinha que se aventure e descubra que os vídeo jogos são uma nova forma de arte.

Como epílogo gostaria de dizer que isto é apenas a minha visão de experiência. Não uso gamer como dog tags, como se a minha vida fosse só isso. Bem sei que há pessoas que o fazem, mas há pessoas que o fazem com tudo e mais alguma coisa. Falho em compreender porque é que os gamers são o alvo, possivelmente porque é algo novo e é mais fácil atacar algo que é novidade e não é completamente compreendido.

E com isto gostaria de acabar:

Saitama, o salvador da pátria.
Saitama, o avatar dos nossos pensamentos.
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